Enurese: prevalência e etiologia
A Enurese é referida na literatura como um dos problemas da infância com a mais alta taxa de prevalência. Para as crianças de sete anos de idade chega a variar de 5% dos meninos e 0,5% das meninas em Hong Kong a 16,2% dos meninos e 18,7% das meninas no Sudão (Butler, Golding, & Northstone, 2005).
Um estudo realizado na Inglaterra (Butler et al., 2005) investigou a prevalência da Enurese entre crianças de 7,5 anos de idade. Ele evidencia o impacto da definição de Enurese sobre os resultados obtidos. Os resultados indicaram que 20,2% dos meninos e 10,5 % das meninas molhavam suas camas. A maioria dessas crianças apresentava a frequência de uma vez por semana ou menos, e somente 3,6% dos meninos e 1,6% das meninas apresentavam a frequência definida pelo DSM-IV (duas vezes por semana pelo menos) (Butler et al., 2005).
Os estudos indicam uma maior prevalência da Enurese em meninos, com taxas igualando-se na adolescência (Butler, 2004). Estudos longitudinais sobre a história natural da Enurese não são mais possíveis porque seria considerado antiético não tratar crianças enuréticas. Hjalmas et al. (2004) indica uma taxa de remissão espontânea anual de 14% entre cinco e nove anos; 16%, entre 10 e 19 anos; e uma prevalência de 3% acima de 20 anos (Hjalmas et al., 2004).
A Enurese é mais comum em grupos de nível sócio-econômico mais baixo e em crianças institucionalizadas (Fritz et al., 2004). Essas diferenças de prevalência foram reportadas por dois estudos no Brasil. Em uma amostra com crianças de cinco a nove anos, foi encontrada uma associação significativa entre prevalência da Enurese e nível econômico, com frequência igual a zero para a Classe A, 8,5% para Classe B, e 31,1% para Classe E (Mota et al., 2005). Em outro estudo que comparou um grupo de crianças institucionalizadas e não institucionalizadas, com idades entre 4 e 11 anos, a diferença na prevalência da Enurese foi significativa (47% versus 27%) (Barroso et al., 2006).
Etiologia
A literatura não vê a etiologia da EN como uma questão fechada (Nevéus, 2009), mas aponta hipóteses causais que podem ser agrupadas em três áreas: atraso no desenvolvimento, fatores genéticos e fatores psicossociais (Butler, 2004). Alguns autores (Hjalmas et al., 2004) afirmam categoricamente que os fatores genéticos são proeminentes e que os fatores ambientais (somáticos e psicossociais) exercem principalmente efeitos modulatórios sobre o fenótipo. Atualmente, parece haver consenso entre os principais pesquisadores da área de que a Enurese é um transtorno heterogêneo (Butler, 2004; Hjalmas et al., 2004). Isso quer dizer que diferentes grupos de crianças enuréticas apresentam diferentes mecanismos fisiopatológicos subjacentes ao problema. O reconhecimento da heterogeneidade sugere que nenhum fator causal é universalmente válido e que, em cada caso, as influências etiológicas são potencialmente diferentes (Butler, 2004).
Em seu estudo realizado com gêmeos, Ooki (1999) encontrou taxas de concordância maiores em gêmeos monozigóticos do que em dizigóticos, sugerindo a existência de determinantes genéticos. A taxa foi mais alta em meninos de três a quatro anos e meninas com idade entre cinco e oito anos. Os estudos de genética molecular, entretanto, não são conclusivos quanto ao estabelecimento de relações entre genótipo e fenótipo de EN ou incontinência (Loeys, Hoebeke, Raes, Messiaen, De Paepe e Walle, 2002).
Em seu estudo de revisão, Von Gontard, Schaumburg, Hollmann, Eiberg e Rittig (2001), apontam que apesar de os fatores genéticos serem importantes, os somáticos, psicossociais e ambientais têm um papel modulatório predominante. Os autores afirmam ainda que o padrão de transmissão é o autossômico dominante de alta penetração. A revisão dos estudos sobre a genética da enurese, que vem sendo investigada desde os anos 1930, mostra que a heterogeneidade dos sintomas e dos loci não permitem afirmações precisas sobre a relação entre os genes e os quadros de EN (Pereira, 2010).
Segundo Butler e Holland (2000), a etiologia da EN pode ser mais bem compreendida através do que denominam de modelo de três sistemas, sendo que cada um destes envolve um possível mecanismo responsável pelas molhadas na cama.
Dificuldades no sono e despertar
É comum entre as crianças o controle da urina durante do dia e não durante a noite. Por isso, a hipótese de senso comum é que o problema está na intensidade do sono delas. Crianças com EN são vistas pelos pais como tendo sono profundo, e Wille (1994) afirma que elas são mais difíceis de serem acordadas do que as não portadoras de EN. Butler (1994) concorda que a enurese não é conseqüência de sono pesado, e afirma que ela é um resultado da incapacidade de responder aos sinais da bexiga durante o sono. “Quando os sinais da bexiga assumem importância, a criança desenvolverá o controle através do segurar (contraindo os músculos pélvicos) ou acordando” (p. 28). Uma das chaves para o tratamento da enurese, então, é tornar os sinais da bexiga importantes.
A maturação parece explicar melhor esse aspecto. Segundo Baeyens, Roeyers, Naert, Hoebke, & Walle (2007), um atraso no desenvolvimento do sistema nervoso estaria afetando os núcleos do tronco cerebral responsáveis pela inibição da contração detrussora durante o sono. Os autores argumentam que esse atraso pode causar a EN, mas a maturação desses núcleos, com a EN uma vez instalada, não é suficiente para que as crianças portadoras dessa queixa deixem de molhar a cama. Portanto, o mecanismo de “cura” seria outro.
A performance motora das crianças com EN é menor do que as que não têm essa queixa, segundo o estudo feito na Alemanha por Von Gontard, Freitag, Seifen, Pukrop & Röhling (2006). Isto pode indicar que, além do atraso no desenvolvimento do tronco cerebral, partes do córtex podem desempenhar um papel na EN.
Sobre o sono de crianças portadoras de EN, Nevéus (2009) encontrou que ele é mais superficial do que o daquelas que não têm esse problema, mas, paradoxalmente, são mais difíceis de despertar por conta de um limiar elevado, uma vez que o cérebro parece priorizar a integridade do sono frente a reação a estímulos. No entanto, os estudos relativos a essa hipótese ainda são preliminares.
Poliúria noturna
A alta produção de urina no período noturno é devido ao fato de os rins deixarem de concentrar a urina à noite, como ocorre normalmente, por uma deficiência na liberação de vasopressina. Estudos mostram que tratamentos com desmopressina, hormônio sintético, diminuem a incidência de noites “molhadas”, e que estas estão relacionadas com a quantidade de urina produzida durante a noite (Hansen & Jorgensen, 1997), o que, em tese, confirmaria a hipótese da poliúria noturna como fator causal da EN.
Atividade detrussora disfuncional
É a instabilidade do músculo detrussor durante o sono (Houts, 1991). O escape urinário seria produzido por contrações espontâneas da bexiga. Haveria um relaxamento da musculatura pélvica e contração involuntária do detrussor, o que está associado à micção. As Crianças sem EN respondem ao enchimento da bexiga com contração do esfíncter e inibição das contrações involuntárias do detrussor, o que permite que elas continuem dormindo sem urinar ou que respondam acordando à sensação de bexiga cheia, caracterizando a noctúria. Os pesquisadores belgas Baeyens, Roeyers, Naert, Hoebke & Walle (2007) evidenciaram que de fato as crianças com EN têm um déficit maturacional no núcleo responsável pela inibição das contrações involuntárias da bexiga, impossibilitando a resposta que lhes permitirá continuar dormindo sem que o episódio de EN ocorra. Como a bexiga geralmente não se enche totalmente, também é comum que a atividade detrussora disfuncional esteja associada.